Feminismo Radical e identitarismo são como água e óleo: não se misturam

Contribuição de Mandy

Nos chamamos de radicais desde o início do movimento de libertação das mulheres porque nos opusemos a todas as formas de opressão e exploração, econômicas e políticas. Nos chamamos de mulheres radicais porque vimos a libertação das mulheres como uma prioridade necessária. O objetivo era abolir todas as classes, toda opressão, toda exploração através da distribuição igualitária de poder político, econômico e social. Queríamos construir um movimento de libertação das mulheres em massa, porque ficou claro a partir da história e de nossas próprias experiências que apenas as mulheres organizadas como uma força política independente poderiam garantir que, na sociedade que imaginávamos, a opressão das mulheres não existisse mais.

Carol Hanisch — Feminist Revolution

Feminismo é revolução, não identidade

Esse é um assunto espinhoso, mas acredito que não podemos recuperar o passado revolucionário do Feminismo Radical — e transformá-lo em nosso presente e futuro — sem tocar nesse assunto. E vamos aos fatos: há algo muito de errado com o que está sendo propagado como “feminismo radical” na internet e isso merece uma análise e crítica francas.

Isso porque, geralmente, as críticas sobre o assunto, que são verdadeiras, confundem um movimento revolucionário com 50 anos de vida com as distorções identitárias grotescas feitas por um grupo minoritário de mulheres ou adolescentes no espaço virtual. Disso surgiu algo que defino como “cultura radfem”, cujas práticas transformam o movimento feminista radical em um estilo de vida, onde nos libertamos da nossa opressão através de “desconstrução” pessoal (da maquiagem, da heterossexualidade compulsória, etc), enquanto a supremacia masculina é mantida intacta.

Opa, não entenda errado! Não estou proibindo alguém de se auto intitular “radfem”, também não estou dizendo que todas as mulheres que usam o termo possuem motivações identitárias. Mas é um fato que muitas daquelas que colam o nome “radfem” (e aqui no Brasil temos variações no mínimo risíveis como “radmansa”) em suas bios nas redes sociais buscam o sentimento de superioridade às mulheres das outras “vertentes”, querem sentir o gosto de serem percebidas como rebeldes (o terrível “slogan” que diz “faço parte da vertente mais odiada do movimento mais odiado” fala por si) ou apenas vêem no Radical uma forma de terapia feminina grupal frente à realidade cruel da violência masculina ao invés de um movimento político para a derrubada da supremacia masculina. Há também aquelas que simplesmente vêem o movimento como um clube da Luluzinha e o mais comum é não conhecerem o próprio movimento do qual dizem fazer parte, enquanto mandam outras pessoas — igualmente alheias à verdadeira história do movimento — irem estudar. E isso porque eu não citei o Queer/Transativismo, que acredito que merecem uma atenção especial em uma perspectiva diferente.

É bom deixar explícito que o identitarismo e a banalização de movimentos sociais na internet não é algo exclusivo do Feminismo, tampouco nasceu na internet. Sempre existiram pessoas mais comprometidas que outras, sempre existiram oportunistas também. A internet apenas impulsiona comportamentos negativos e reacionários em uma militância. O que complica a situação do Feminismo é que as mulheres não são iguais aos outros grupos oprimidos. As mulheres estão em todos os extratos da sociedade, estão em todas as raças e são metade da população humana! Como Gerda Lerner bem disse, formulações teóricas usadas para outros grupos oprimidos são inadequadas quando aplicadas às mulheres.

O Feminismo, claro, abarca essa problemática, embora o modo como a política do movimento tenha sido falseada mostre o contrário. Como o artigo “A história não-contada da segunda onda” nos revela — embora até mesmo ele repita algumas falácias contra o Feminismo Radical -, o estereótipo do Feminismo como “branco classe média” só é sustentado pelo apagamento histórico de mulheres negras, latinas, asiáticas e terceiro mundistas da história do movimento; ironicamente, praticando racismo e o “classismo” que acusam ser a base do Feminismo e não um efeito do movimento coexistir com a supremacia branca e a sociedade de classes. E ambos estão longe de ser um problema exclusivo do Feminismo.

Denise Thompson também apontou a exclusão do Feminismo Radical do espaço acadêmico como uma política supremacista masculina:

“Como as disciplinas acadêmicas são convencionalmente identificações masculinas, não surpreende que um feminismo que exponha esses interesses não possa ter um lugar no cânone acadêmico. O fato de algum trabalho feminista da academia ter sido capaz de identificar e resistir às coerções e seduções do pensamento de má-história é uma homenagem ao compromisso, persistência e dedicação de seus autores. Existem muitas feministas na academia, cuja política feminista é direta e inequívoca, e conseguiram transmiti-la aos seus alunos, mas elas são uma minoria em apuros como feministas radicais em todos os lugares.” (Denise Thompson — Radical Feminism Today)

Oras, o Feminismo Radical não é comumente propagado como acadêmico? Pois é, essa é outra mentira. O movimento nunca foi bem aceito na academia, algo que também foi denunciado por Sheila Jeffreys e coincide com a época em que o neoliberalismo estava engolindo os movimentos sociais e a esquerda americana.

Com os fatos expostos acima, quis mostrar que ser Feminista carrega um peso muito grande, portanto, não podemos tolerar banalizações do termo nem do movimento.

“Vertentes” obscurecem interesses supremacistas masculinos

A idéia de “múltiplas vertentes” também não ajuda. Na verdade, apenas atrapalha.

É óbvio que dentro de um movimento social existem várias correntes de pensamento e as divergências estão longe de ser o problema. O verdadeiro problema é, como foi extensivamente analisado por Denise Thompson em “Radical Feminism Today”, como a ideia de múltiplos feminismos prejudica o movimento a definir sua própria política (isto é, a própria razão do Feminismo existir) e passa a ser qualquer coisa que uma mulher ou um grupo de mulheres definem como Feminista.

Toda a problemática da “pormografia feminista” nasce desse contexto. Por isso, considero muitas das críticas ao famigerado “libfem” algo parecido com chutar cachorro morto. É uma crítica muitas vezes vazia, pois muitas mulheres que criticam as liberais também desprezam a história Feminista. Para muitas delas, o Feminismo também é qualquer coisa que uma mulher ou um grupo de mulheres definem como Feminista, mas geralmente usados para muitos outros propósitos que não o original, isto é, o combate à supremacia masculina.

Nesse contexto, não é muito raro ver muitas mulheres — geralmente jovens — tratando as supostas “vertentes” como um cardápio onde selecionamos o que vai de encontro ao nosso estilo de vida. Além disso ser profundamente individualista, ignoram(ou simplesmente desconhecem) os contextos anti revolucionários onde muitas das “vertentes” feministas foram criadas. No livro Feminist Revolution, essa questão é abordada de diversas formas. A Sarachild, uma militante Feminista Radical de longa data, analisa como a esquerda (masculinista) removeu o Feminismo do radicalismo e como mulheres liberais removeram o radicalismo do Feminismo:

A esquerda supremacista masculina queria negar que o feminismo era necessário para o movimento de massas e necessário para que as mulheres continuassem como radicais. Os establishment liberais queriam negar que o radicalismo era popular e estava por trás do movimento de libertação das mulheres. Portanto, tanto a esquerda quanto a direita depositaram todas as suas esperanças no que cada um chama de “o segundo estágio” ou “fase 2” do movimento. Para a esquerda, esse era o estágio em que o feminismo não seria mais visível. Para a direita, foi o estágio em que tanto o feminismo quanto o radicalismo não seriam mais visíveis.

Brooke, outra autora do livro “Revolução Feminista”, analisa como o chamado “Feminismo Cultural”, que relega a opressão das mulheres meramente a questões culturais enquanto substitui a política Feminista por estilo de vida, muitas vezes é “confundido” como Feminismo Radical e isso obviamente não é um equívoco inocente. Trata-se dos muitos ataques que o Movimento sofreu ao longo das décadas:

O feminismo cultural é a crença de que as mulheres serão libertadas por meio de uma cultura feminina alternativa. Isso leva a uma concentração no estilo de vida e na “libertação pessoal” e se desenvolveu às custas do feminismo, mesmo que se chame de “feminista radical”. A frase feminista cultural foi originalmente usada para atacar mulheres radicais que estavam expondo os problemas supostamente pessoais como sexo e trabalho doméstico como político, questões de libertação das mulheres.

[…] Outra teoria, cada vez mais pressionada à medida que o feminismo cresce, isenta os homens de qualquer responsabilidade, exceto a psicológica (se é que isso é), pela opressão das mulheres e culpa tudo isso vagamente nos “papéis sexuais” ou “sociedade”. A idéia é que nossa opressão é puramente psicológica e a maneira de sair disso é desenvolver um “senso de si” e ver como “os homens também são oprimidos” pelos papéis sexuais. Esta teoria, promove uma “Revolução dos Papéis Sexuais” em vez de uma verdadeira revolução feminista sobre o antagonismo de classe entre homens e mulheres e substitui mudança cultural por mudança de poder. Ele geralmente substituiu o feminismo radical como a ideologia da maioria do movimento das mulheres, enquanto adotava o nome feminismo radical.

A tática de destruir por dentro, dissimulando seu real objetivo, deu tão certo que a comunista indiana Anuradha Gandhi, em seu livro “As correntes filosóficas dentro do movimento Feminista”, atacou o Feminismo se baseando em distorções e falácias da prática e teoria Feminista. Na sessão do livro dela sobre o Feminismo Radical, a autora se mostra alheia de todo o backlash que engoliu o movimento, “confundindo” o Feminismo Radical com Feminismo lésbico, Feminismo Cultural e Separatismo lésbico. Ela também omitiu a clara influência do maoísmo no corpo teórico e prático do Feminismo Radical.

Feminismo não é simplesmente colocar este nome na frente de “liberal”, “socialista”, “anarquista”. É uma luta contra a supremacia masculina que, como vemos, causa incômodo mesmo no seio revolucionário.

O identitarismo é anti Feminista Radical

Redefinir as políticas feministas radicais para um foco quase exclusivo nas diversas formas de violência masculina foi outro erro grave pelo qual o Movimento está pagando um alto preço. A questão não é se devemos esperar uma revolução feminista (e socialista) para tratarmos essas questões. O grande problema é: essas questões estão sendo tratadas sob uma perspectiva individual ou coletiva?

Explico: as Feministas radicais pioneiras quebraram as barreiras que separavam o pessoal do público, ou seja, as questões que afligiam as mulheres na esfera privada (como estupro, trabalho doméstico não-remunerado, etc) não eram falhas de mulheres individuais, mas sim uma questão de poder dos homens como uma classe sobre mulheres como uma classe. Foi daí que o slogan “o pessoal é político” nasceu.

Elas rejeitaram a ladainha da “lavagem cerebral”, que serve apenas ao propósito de individualizar problemas inerentes da supremacia masculina, além de retratar algumas mulheres como superiores e outras como estúpidas e inferiores que “consentem” com a própria opressão.

A questão é: isto está acontecendo atualmente?
A resposta para essa pergunta é não.

Muitas das mulheres que se denominam Feministas Radicais hoje estão presas em um estreito mundo onde a questão da violência masculina contra as mulheres está sobrepujando outras questões igualmente valiosas. E, dentro disso, há um agravante: as teorias e análises de Andrea Dworkin e Sheila Jeffreys são convertidas para um estado contrarrevolucionário, no qual, aparentemente, a supremacia masculina é inevitável e até mesmo biológica (embora ambas as autoras tenham rejeitado o determinismo biológico) e tudo o que podemos fazer é mudar nosso estilo de vida para melhor lidar com ela.

Um grande exemplo disso é como a questão da feminilidade vem sendo tratada no espaço virtual supostamente Feminista Radical de modo totalmente individualista, não se diferenciando muito da abordagem da teoria Queer mainstream, onde tudo é uma performance. Até mesmo o termo “performar feminilidade” foi importado da linguagem butleriana. Nessa abordagem revisionista da feminilidade, as mulheres, dentro do capitalismo supremacista masculino branco, podem “escolher” ou não adotar signos de feminilidade (salto alto, maquiagem, brincos, etc) e é claro que aquelas que conseguem se libertar disso são vistas como as “feministas radicais verdadeiras”, enquanto muitas vezes menosprezam/constrangem as mulheres que, por variadas razões, não podem ou não conseguem “se libertar” dela.

O problema dessa abordagem é que ela trai a premissa Feminista Radical de coletividade. Não estou dizendo que devemos ser neutras à indústria da beleza. Na verdade, é contraditório ser Feminista e adotar uma posição de neutralidade à uma indústria que sobrevive da objetificação das mulheres como uma classe e da hierarquia racial entre mulheres. Mas a feminilidade não pode ser combatida pela simples recusa da maquiagem, até porque ela não é medida simplesmente pelo uso (ou não) de maquiagem. Como Sheila Jeffreys explica em seu livro “Beleza e Misoginia”, feminilidade é o comportamento do oprimido:

A diferença entre homens e mulheres é criada dentro e pela cultura, mas é considerada natural e biológica. A grande dificuldade que homens e mulheres têm em ver a feminilidade e a masculinidade como socialmente construídas, e não como naturais, atesta o vigor e força da cultura. A teórica feminista francesa Colette Guillaumin explica a dificuldade nessa ideia cultural que as mulheres são ‘’diferentes’’ (Guillaumin, 1996). Se as mulheres são ‘’diferentes’’, então precisa haver algo no qual são diferentes. E algo se revela sobre os ‘’homens’’, não são eles ’’diferentes’’ de qualquer coisa, eles apenas são. Se apenas as mulheres são entendidas como diferentes, ‘’Os homens não são diferentes de nada… Nós somos diferentes — esta é uma característica fundamental. Nós prosperamos na façanha gramatical e lógica de sermos todas diferentes. Nossa natureza é diferente’’ (Guillaumin, 1996, p. 95). As mulheres são, com certeza, entendidas como ‘’diferentes’’ dos homens de muitas formas, ‘’delicadas, bonitas, intuitivas, irracionais, maternas, fracas, falta a elas um caráter de organização’’, como Guillaumin coloca isso (1996, p. 95). Mas o mais importante é que as mulheres são entendidas como diferentes dos homens por serem potencialmente ‘’bonitas’’ e serem interessadas na beleza, e com entusiasmo gastarem longo tempo, dinheiro, dor e estresse emocional para serem ‘’bonitas’’. Isso é assumido na cultura ocidental como ‘’natural’’ às mulheres e o sinal mais persuasivo de diferença entre as mulheres e os homens.

[…] A ideia de diferença sexual biológica é o maior obstáculo para o reconhecimento de que homens e mulheres atualmente estão em relações de dominação e subordinação. Como outra teórica feminista francesa, Monique Wittig, coloca, ‘’A ideologia de funções sexuais diferentes como censura em nossa cultura mascara, no terreno da natureza, a oposição social entre homens e mulheres’’ (Wittig, 1996, p. 24). A diferença sexual é criada por um sistema de dominação porque em qualquer sistema de dominação, ‘’Os dominadores explicam e justificam as divisões estabelecidas como o resultado de uma diferença natural’’ (p. 24). Wittig argumenta que os conceitos ‘’homem’’ e ‘’mulher’’ são categorias políticas e devem ser abolidos em uma luta de classes entre homens e mulheres, se as mulheres forem bem sucedidas. Mas as mulheres não se engajam nessa luta de classes. Elas não reconhecem que são dominadas porque as ‘’oposições (diferenças) aparecem como dadas, como se já estivessem ali, antes de todo pensamento’’ (1996, p. 25).

Feminilidade é o comportamento do oprimido e subalterno, e a classe dominante utiliza as diferenças biológicas entre homens e mulheres para projetar a feminilidade como uma essência de ser uma mulher. Assim, ao naturalizar a opressão das mulheres em termos de “essência feminina”, isto é, feminilidade, mesmo a rejeição da subalternidade é vista como uma afronta à ordem “natural” entre os sexos.

Sendo a feminilidade uma categoria política, ela não será destruída se simplesmente optarmos por não usar maquiagem. Ela só pode ser destruída quando um movimento feminista massivo e popular demolir a supremacia masculina em todos os aspectos.

Existem muitos outros exemplos de abordagens des-radicalizadas que estão ganhando corpo como se fossem uma política Feminista Radical verdadeira, mas escolhi a feminilidade por ser um assunto popular. Se não tomarmos nota do que está sendo disseminado como Feminista Radical, entraremos em um beco sem saída. Eu vejo nas identitárias uma força reacionária muito semelhante a que as militantes da Redstockings enfrentaram décadas atrás e merecem o mesmo combate. Como mostrei, elas são liberais que pedem por radicalismo utilizando o individualismo para lidar com as questões das mulheres.

As identitárias não almejam que o movimento retorne às suas bases populares e revolucionárias (isso perderia parte da graça de se projetarem como “rebeldes”). O que elas desejam é nos manter presas no mesmo local que o backlash supremacista masculino decretou: desmobilizadas, des-radicalizadas, alheias às nossas lutas reais e à dos outros movimentos sociais. Elas querem nos manter minúsculas, assim qualquer pessoa pode falsificar a história do movimento e isso é mantido como a verdade.

A primeira luta do movimento atualmente começa com o resgaste da sua história verdadeira e com passá-la adiante. Precisamos desmistificar o Feminismo Radical, precisamos denunciar quem o deseja como algo inofensivo (enquanto força política) e, ao mesmo tempo, projeta nele um bicho-papão (colocando em nossa conta crimes e erros que nunca cometemos).

Nós, feministas radicais brasileiras, também precisamos fazer mais do que apenas enfiar o contexto do Feminismo Radical americano no contexto brasileiro. Necessitamos criar um Feminismo Radical Brasileiro usando as experiências das mulheres brasileiras, sem nunca esquecer ou secundarizar os pesos que o colonialismo, a supremacia branca e o imperialismo exerceram e ainda exercem na realidade brasileira.

As ferramentas para isso já foram criadas por nossas antepassadas: é a consciência feminista, que embora já tenha sido banalizada e desacreditada por parte da esquerda como uma “terapia”, é um ponto de partida valioso.

A palavra “radical” é profunda demais para ser utilizada de modo tão leviano e des-radicalizado. Porque, como bem disse Barbara Leon: o único objetivo radical é a eliminação de todas as classes.

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